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Sanfoneiro sindiclaustrizado
Há muitos e muitos anos, na cidade de Literacity existia numa empresa estatal um funcionário que estava sendo perseguido constantemente para que cumprisse horários a mais de serviços e desse conta das tarefas em tempos determinados. Como ele não melhorava, por decisão superior ele iria ser mandado para trabalhar em outra cidade, longe da sua família. Como ele era sindiclaustrizado, foi procurar orientação e os seus interlocutores expressou a sua situação:
- Eu estou trabalhando sob pressão e como não gosto de ser mandado fazer nada contra a minha vontade, o chefe está querendo me transferir para outra cidade. O problema não é meu. Eu até gosto de trabalhar, mas estou passando por momento delicado na família e isso está influenciando no meu horário e produção. O que devo fazer para não ser enviado para outra cidade?
Para a sua surpresa e estarrecimento, ouviu a orientação, que segundo um dos seus interlocutores já era comum agir daquela maneira, a fim de dar uma resposta aos seus superiores:
- Olhe rapaz, a situação pode ser resolvida com facilidade. Esses chefes e gerentes são golpistas da elite e não gostam de funcionários. Vamos dar o troco a ele. Como hoje é sexta feira, você vai passar o final de semana treinando o que vamos ensinar:
Quando chegar no trabalho na segunda feira, diga ao chefe que você quer se suicidar, e que já comprou o veneno e se ele lhe transferir, você morre antes de sair da cidade. Não se incomode, se ele teimar em lhe transferir, o nosso médico lhe atende e lhe aposenta pelo INSS como louco suicida. Pronto, não se preocupe, pois você não vai sair daqui.
Espantado, o funcionário que era sério, honesto e capaz reagiu:
- O que é isso? Eu querendo mostrar competência e qualidade no serviço, para sair da situação de imprestável, melhorando a produtividade e jogando o gerente contra seus superiores, vocês querem que eu invente uma coisa absurda dessa? Muito obrigado! Eu estou no lugar errado. Vou até mesmo para outra cidade e mostrarei que posso ser produtivo, para poder voltar a trabalhar aqui, em minha cidade.
Orientado pela família para ir, para não ser demitido, evitando ser tratado como abandono de emprego, foi para a outra cidade e começou a trabalhar, tentando superar os problemas, mas no início também foi difícil, pois a sua fama de gente ruim já havia chegado naquela nova cidade. Não sabia o que fazer, já que tudo que era ruim ou coisa errada alguém dizia que passava por ele. Nesse ínterim chegou um novo chefe para aquela unidade da empresa estatal e logo ficou sabendo que esse novo funcionário tocava sanfona muito bem e era seu sonho aprender tocar o instrumento. Combinaram três aulas por semana à noite, já que o funcionário não tinha nada o que fazer mesmo, morando sozinho nos fundos de uma pensão, para não gastar o salário todo somente com a hospedagem.
O gerente comprou uma sanfona e começaram as aulas. O tempo foi passando e entre uma aula e outra na casa do chefe os dois foram se entendendo e ficando amigos, refletindo positivamente no trabalho, ao ponto que ele passou a ser assessor direto do gerente, mostrando habilidade, interesse e vontade de voltar para a sua terra natal. A transferência de volta foi prometida logo que aparecesse uma oportunidade. Aquela unidade melhorou as metas e os resultados, e começou a ser mais destacada, os demais colegas começaram a dar mais valor aos trabalhos dele, depois de várias reuniões, nas quais era oferecida oportunidade de expressar seus sentimentos, preocupações e qualificações. Em quatro meses chegou a ser destacado como o funcionário do mês por duas oportunidades e o gerente feliz já estava tocando algumas músicas na sanfona.
Tudo estava bem, e depois de um ano ficou satisfeito em saber que aquele tipo de tarefa de vendas e pós-venda que ele fazia ali também estava precisando ser feira na matriz da empresa, que era localizada na sua cidade natal, onde morava a sua família.  
Pronto, chegou o dia, a transferência de volta para a sua cidade chegou. Era uma sexta feira, e na segunda feira ele deveria se apresentar na sua cidade. Avisou a família, e a felicidade era geral.
Recuperado, lembrou da orientação que recebera na cidade anterior e foi conversar com o sindiclaustro daquela cidade, para saber se eles teriam uma postura diferente. Chegando lá, apresentou-se e fez de contas que estava sendo perseguido e que estava insatisfeito. Depois de ser ouvido ele recebeu a seguinte e nova orientação:
- Olhe rapaz, a situação pode ser resolvida com facilidade. Esses chefes e gerentes são golpistas da elite e não gostam de funcionários. Vamos dar o troco a ele. Como hoje é sexta feira, você vai passar o final de semana treinando o que vamos ensinar:
Entorte os dedos das duas mãos, e quando chegar no trabalho na segunda feira diga ao chefe que você está com LER – Lesão do Esforço Repetitivo, e que não tem mais condições de trabalhar. Não se incomode, se ele teimar em continuar a lhe tratar mal, o nosso médico lhe atende e lhe aposenta pelo INSS como inválido. Pronto, você vai dar uma resposta a ele.
Sorridente, o funcionário lembrou-se de alguma coisa que lhe havia acontecido em sua cidade natal, suspirou levantando-se da cadeira onde estava sentado e agradeceu:
- Obrigado!
Saindo, voltou-se para a parte interna do ambiente e falou para o seu atendente:
- Já pensou se eu não fosse sanfoneiro?
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 09/01/2018
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