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Rainha da vitória - Um orfanato da muita grandeza

Numa grande cidade existia um orfanato com trinta e duas crianças carentes, de até dez anos de idade, tudo sustentado pelo velho senhor Conde Ocir Mobo, solteiro da dinastia Natofotan. Ninguém conhecia realmente a situação patrimonial dele, somente que era rico e dono de uma rede de haras pelo mundo.
A preocupação dele com o orfanato era o que seria das crianças após a sua morte, pois aquele trabalho social não poderia acabar, e aquelas crianças não poderiam ficar desamparadas. Além disso, o seu patrimônio e a sua riqueza ainda poderiam servir por muitos anos.
Após uns quarenta anos de doações, adoções e amparo à novas crianças que chegavam, uma doença incurável o levou à morte, aos oitenta e quatro anos, comovendo a todos na cidade.
Havia no orfanato um trabalho social de adoção das crianças até completarem dez anos pelas comunidades das cidades próximas. Assim sempre ocorria, pois o orfanato tratava bem, com uma boa estrutura e credibilidade junto ao poder público e a justiça.  
A cada nova turma que completava, ele refazia um testamento guardado num cofre de um banco, para ser aberto somente pelo gerente quando ele morresse, após a adoção de todas as crianças que fossem morar com sua nova família, sem oferecer previamente nenhuma promessa de ajuda, pois teria de ser feita a adoção por amor, e não por benefícios ou caridade. Na última turma com trinta e duas crianças chegou uma pretinha com uma simpatia no olhar que parecia ter dois olhinhos cativantes de brilhante, e um sorriso encantador. Mas era bem feinha, chamada delicadamente pelo Conde de “minha inha”. O que seria?
– “Inha” significa minha Rainha. – explicava carinhosamente o Conde.
O orfanato sempre recebia apoio dos jornais e rádios locais para divulgação do trabalho, inclusive sobre a morte do Conde. Como o orfanato iria fechar mesmo, foram preparadas as últimas adoções que iriam acontecer. Das trinta e duas crianças só restou a “inha” de cabelo duro e sorriso cativante. Ninguém a quis adotar, ficando ainda por duas semanas ali sozinha no orfanato, apenas com o administrador e a zeladora, ambos voluntários, responsáveis pelos cuidados das instalações e quarto da menina, além de ter a autorização para abrir o cofre que estava num grande banco, onde foi colocado o último testamento do Conde Ocir, após o final de todas as adoções.
Como ninguém quis mais ficar com a menina, lá no orfanato apareceu um gari, casado há 10 anos com uma dona de casa, que não podia ter filhos, por deficiências hormonais, mas viviam felizes esperando o dia de ter uma filhinha. Ao chegar à porta do orfanato já em quase desativação, viu o cartaz com apenas a foto de Rainha do Conde. Correu em casa na sua bicicleta e foi falar com a esposa para falar sobre aquele milagre. Ela se arrumou ligeiro e pegou carona na garupa do transporte do marido. Na porta também viu a foto. Claro que era a filha que eles sonhavam, com apenas seis aninhos. Ao olharem para dentro do orfanato, viram um senhor catando folhas caídas das árvores com uma menina brincando no chão.
- Ei, pode vir aqui? – Chamaram o homem.
Ao abrir o portão a menina nem esperou nada. Abraçou as pernas da mulher e gritou: - mamãe.
Pronto! Era o que faltava. Conversaram com o administrador, que os levaram à Vara da Infância e da Juventude, onde o juiz teve dificuldade para concluir a adoção, pela falta de posse e condições financeiras daquela família, que pudessem possibilitar alimentação e um bom estudo para a menina. Mas foi-lhes concedida uma adoção provisória de noventa dias, quando seria reavaliada a situação, mesmo porque ninguém apareceu para adotá-la.
O Conde havia deixado escrito e autorizado ao banco que o dinheiro da conta do orfanato seria sempre para sustentar as despesas por um ano, enquanto eram feitas as adoções, e o tempo estava passando. Além disso, o envelope com o testamento somente deveria ser aberto pelo gerente do banco, na presença de um juiz e a direção do orfanato, após todas as adoções acontecerem.
Uns 20 dias depois da última adoção de “Inha”, foi marcada a data de abertura do envelope, lá estavam todas as pessoas que fizeram as adoções legais das trinta e duas crianças no fórum da cidade. Ao abrir o envelope com o testamento na audiência, o juiz assim fez a leitura:
- Para todos que aceitassem uma daquelas crianças para criar, deixaria pago um ano de compras no supermercado de uma rede da família dele, no valor mensal de $ 1.000,00 para aquisição de alimentos e medicamentos.
Mas para quem ficasse com o sua “inha”, aquela menina feinha, deixava o seu palácio com trinta e dois quartos, além da parte majoritária da sociedade nos seus Haras, além de uma bela fazenda, produtora de leite, com 320 vacas, 50 bois, 6000 galinhas, 1500 porcos, 480 cavalos e 120 jegues, além de uma aplicação em renda fixa na conta pessoal de $ 10 milhões.
Foi sugerido pelo juiz que o dirigente do orfanato ficasse sendo o Curador daquele patrimônio, estipulando para ele uma boa renda mensal, com a obrigação de prestação de contas todo final de mês à Corte de justiça. Assim foi feito. Assim foi bem feito.
- Todos estão de parabéns! – Finalizou o senhor Juís.
Com aquela riqueza toda, o Curador colocou um advogado a disposição do casal, agora os pais de “inha”, para administrar os bens.
Quando o advogado marcou a primeira visita ao casal no dia seguinte pela manhã no seu escritório, fez a primeira pergunta:
- Qual é a primeira coisa que vocês querem fazer com tanto dinheiro?
Dona Iragamu, a mulher do gari Ari olhou para ele, ele olhou para ela, que estava com Rainha no colo, viraram para o advogado e disseram:
- Queremos reabrir o orfanato, com o nome de Orfanato Rainha da Vitória, com o nome que queremos batizar a nossa filha, pois o Conde morreu, mas o seu trabalho não pode morrer. Foi lá que ele nos deu a nossa filha, a mandado de Deus. A nossa obrigação agora é morar dentro do orfanato e dar condições a outros filhos desprezados pela vida, para que sejam amparados até que apareçam outros filhos de Deus que queiram dar dignidade a eles. Queremos os dois voluntários conosco, com casa boa e um carro como transporte para continuar ajudando, recebendo agora um bom salário.

Moral da história: Quem olha com o coração, vê acima das nuvens. Deus é Amor e Justiça, mas aqui para nós: é muito mais Justiça do amor, sabe por quê? Porque o amor é consequência da justiça. Quem for justo, receberá o amor.

- Conto do autor, no Livro Rapsódia de um contador de histórias, Editora Becalete, 2018.
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 27/11/2018
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