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PARABAIANO - Paraibano criado na Bahia, colocando letras em movimento

Textos

O Meteorito e o menino de Bendegó
(Conto do Livro Tributo ao Sertão - Editora Helvétia, 2018)

Um pouco antes de 1784, num monte santo de uma cidade do interior do sertão do Nordeste, onde quase não chovia, existia uma casinha ao pé da serra chamada de mandacaru, com plantações secas e apenas uma única árvore verde e viva, que era exatamente um mandacaru - por isso o nome. Ali morava uma família muito pobre, com o pai Bernardino Botelho, dois meninos e uma menina, o mais velho era Domingos Botelho, mais conhecido como Bodengó, com 12 anos. O outro menino José Botelho, de 11 anos, e a menina Maria Botelho, de 10 anos.
Numa noite de dezembro, lá pelas 21 horas, já perto do dia do Natal, Bodengó estava chorando baixinho, sentado à porta da casa olhando as estrelas no céu azul, triste como em todos os anos, pensando no presente que poderia não ganhar mais uma vez alguns dias depois, pois os seus pais não tinham dinheiro para comprar presente no Natal.
Num determinado momento, como num milagre, uma estrela de luz desceu rasgando o escuro do céu e passou do alto para baixo, deixando uma caminho azulado, clareando a serra do mandacaru, caindo ali perto, no leito do riacho seco. Inicialmente ele ficou com medo, por isso não quis entrar para falar com a família, eles não iriam acreditar e mais, já deviam estar dormindo. Ficou em pé e estático, com os olhos arregalados sem saber o que fazer, quando viu se aproximar dela uma luzinha de asas, em forma de um passarinho na escuridão, que pela graça parecia conhecer o garoto, e se apresentou:
- Menino, o meu nome é Siderito, um octaedrito, e fui mandado do céu para atender um pedido de uma criança que tivesse o nome de Bendengó, eu achei estranho que esso fosse um nome, mas como é o seu nome?
O menino assustado falou com a luzinha.
- Meu nome não é Bendengó, é Bodengó. Eu vi essa luz caindo mesmo. Pensei que fosse uma estrela de Natal, e que este ano seria diferente, pois meu pai nunca teve condição de dar nenhum presente aos seus filhos, por causa da seca, principalmente nessa época de fim de ano. Aqui todo mundo é sofredor, vendo o gado e a plantação morrer, e o riacho sem água.
- Então essa pedra do céu vai ser sua, e se chamará Meteorito de Bendengó, para ficar parecido com o seu nome. Mas diga o que você quer mesmo de presente na noite de Natal?
Para surpresa da luzinha, o garoto não pediu nada para ele especificamente. Depois de pensar, pensar e pensar, pediu:
- O que eu mais quero é que a seca se acabe, para que os meus pais possam plantar e colher alimentos na roça, somente assim a gente poderá comer melhor, matando a fome de muita gente aqui desta região.
- Hum que bom que você pensou em todos. Boa noite!
A luzinha deu um “thau” e voltou voando com alegria para onde caiu a pedra, e logo sumiu.
Poucos dias depois, uma semana antes do Natal, começou a chover na região, nascendo plantas e enchendo o rio seco que por ali passava. Tudo ficou verde na terra e na serra, mas ele guardava o segredo, pois quem sabe pedações dessa pedra não esteja no coração de outras pessoas?
Portanto, se aquela pedra do céu realmente existe, deve estar guardada em algum museu de uma grande capital daquele país, mas esse segredo ficou lá em Bendengó.
A seca continuou nos anos seguintes, pois levaram a pedra do céu para a capital, e outra nunca mais voltou a cair naquele local. Com certeza, se pegarem e levá-la de volta àquela região onde ela caiu, e com fé alguém fizer novo pedido, poderemos ter novos milagres. O milagre persiste, se a fé perdura.
Será que essa pedra existiu mesmo?
- Faça como o menino Bendengó: Acredite e pesquise!  
João Bosco do Nordeste e Diversos - Antologia
Enviado por João Bosco do Nordeste em 22/12/2018
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