João Bosco do Nordeste
Professor Mestre em Educação e Administrador empreendedor
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Textos
SILVIANO SANTIAGO – Pequeno estudo
In: http://www.letras.puc-rio.br/unidades&nucleos/catedra/revista/8Sem_18.html

A obra literária de Silviano Santiago rompe com a ideia cristalizada de noção de cópia ao propor a escrita como espaço em que as literaturas mundial e nacional apresentam-se em uma rede ampla de referências. Cada texto do escritor é a leitura de sua vida. A ficção é o lugar em que outros escritores e suas obras são privilegiados com a reprodução, em diferença, de seus mundos diegéticos. Por isso, vale a máxima borgiana de que os livros não são propriedade privada.
O autor contesta a erudição ao buscar suplemento na comunicação de massa. O autor faz isso ao abrir a malha da escrita textual para os heróis de HQ; ao usar a técnica da montagem cinematográfica como suporte para a estrutura das narrativas ficcionais; ao utilizar a linguagem do romance policial; ao inserir a biografia, a autobiografia, a correspondência como elementos essenciais para a compreensão do sistema literário. Ao mesmo tempo, privilegia a forma da linguagem, nunca simples, sempre complexa e intrincada, dissolvendo a noção de universalidade ao incluir na crítica e na ficção temas, elementos e personagens colocados à margem na literatura e na cultura contemporâneas. A universalidade deve ser a abrangência de todo material humano no conhecimento e na arte.
A universalidade deve ser a infinita obra artística em processo. A obra se constrói sobre as incertezas do homem atual. A fragmentação é a estrutura mais utilizada para a construção ficcional. A desconstrução da narrativa expressa a pulverização das identidades e nacionalidades. O homem é mais do que ser local, ele é um ser para o mundo. O texto deve expressar a amplidão dessas possibilidades.
Silviano Santiago resgata os grupos étnicos e sociais deixados à margem da história político-social das nações periféricas. Ela busca identificá-los e dar-lhes visibilidade. Ela encena a desterritorialização e o exílio geográfico e social. Por isso, tanto a crítica quanto os meios de comunicação de massa têm como sua razão de ser a exposição das obras culturais dissidentes. Aquelas que lutam contra o conformismo do cotidiano, explicitando o cosmopolitismo da literatura ao apresentá-la como obra aberta para o mundo, num palco da manifestação das diversas realidades, dos cruzamentos de diferentes discursos e disciplinas artísticas.
A obra literária se apresenta com um caráter instigante de objeto de conhecimento e inclusão, que possibilita a consciência do outro periférico, deixado à margem. Ela busca o resgate do discernimento na multiplicidade em todos os níveis (sociais, culturais, artísticos), pois é “entre-lugar” e “anfíbia”. Procura o prazer, a comoção, o ensinamento. Do emaranhado textual de Silviano Santiago (ficção, ensaio, entrevista, resenha), surge a rede literária que faz sua escrita ser como uma malha, em que diferentes pontos se tocam formando um conjunto próprio de referências que solidificam o seu projeto intelectual. Como um traçado urbano, crítica e ficção vão construindo uma arquitetura própria que tem como proposta pensar a contemporaneidade, o lugar de onde se fala.
Dessa forma, por um lado, a nação não é pensada como totalidade nem como sistema, enfatizando as múltiplas exclusões no seu processo de construção, bem como critica a práxis do progresso que “dá subemprego às minorias (...); [mas] não dá conscientizacao sócio-política” (idem, 1982 18) em “Apesar de Dependente, Universal”, escrito em 1980 e publicado em Vale Quanto Pesa de1982. Como sintetiza neste mesmo ensaio: “Nem cartilha populista, nem folclore curupira – eis as polarizações que devem ser evitadas a bem de um socialismo democrático. Nem o paternalismo, nem o imobilismo” (idem).
A partir do entre-lugar, podemos também entender que a exclusão do índio e do negro, no plano nacional, se traduz também em um voltar às costas eurocêntrico para a África e para a América Hispânica. O entre-lugar desterritorializa o nacional, como os brasileiros em Nova Iorque de Stella Manhattan e tantos outros personagens em trânsito pelas Américas em contos de O Banquete a Histórias Mal Contadas, compondo uma verdadeira genealogia de uma diáspora tupiniquim que se firma nos últimos 10 anos.
Reflexão que encontra eco e diálogo no ensaio que dá nome ao livro O Cosmopolitismo do Pobre (2004), enfocando não só os intelectuais, mas as solidariedades transnacionais criadas a partir de migrações de trabalhadores, movimentos sociais e ONGs, para quem a cultura não é só uma mercadoria, mas um recurso para o desenvolvimento econômico integrado à constituição de cidadania,

Silviano Santiago e o "fechamento" do Modernismo

Este quadro, que pintamos rapidamente por meio de Octavio Paz e Hannah Arendt, dá a dimensão da insustentabilidade de perpetuarmos os pressupostos teóricos de uma crítica literária que ainda crê em "evolução" (que certamente é mais uma das doutrinas meta-históricas que, segundo Octavio Paz, caíram por terra) ou "padrão universal" no sentido moderno. É por isso que o ensaio de Silviano Santiago sobre o Modernismo, escrito quase duas décadas depois do de Antônio Candido, ou seja, respondendo já a dilemas distintos, insiste tanto em firmar que os ciclos de interpretação do movimento terminaram. É que, dessa maneira, estaríamos deixando de lado um modo de lidar com a literatura cuja temporalidade está falida, falência que fica tão evidente pelas palavras de Octavio Paz: "as negações são repetições rituais, rebeliões de fórmulas, transgressões de cerimônia". Nosso jeito próprio, da modernidade, de promover a mudança e o novo foi justamente aquilo que caiu por terra no ocaso da época. O declínio da mudança e do poder da negação nos deixou desprovidos daqueles instrumentos pelos quais estávamos acostumados a lidar com o tempo e nele instaurar o novo.
É por causa da falência deste modelo temporal moderno que Silviano dá tanta importância ao fato de que o Modernismo, já em 1982, era um objeto domado, uma vez que isso nos livraria de continuar a repisar velhas fórmulas já desgastadas e inúteis. Seu astuto raciocínio forja uma união entre a perfeição com que o crítico João Alexandre Barbosa executou seu trabalho, sendo capaz de formular com exatidão impressionante o que de melhor houve na tradição modernista, isto é, aquilo que nela foi, de fato, moderno, e o acabamento do Modernismo, como se um fosse o indício do outro. Assim, ele pode concordar inteiramente com João Alexandre Barbosa mesmo discordando radicalmente dele. É que Silviano, ao que parece, concorda com tudo, mas vê este "tudo" como um "todo" já acabado e que, por isso mesmo, implica desafios que já não são mais os mesmos. Com isso, ele pode sentir-se à vontade para escrever o seguinte.
Não digo isso para contradizer a escolha dos romancistas e dos romances, feita por João Alexandre. A sua lista, no próprio gesto de precisão crítica que exibe, é impecável - e sorte da literatura que já pode contar com os nomes que ele arrola: Machado, Oswald, Mário, Graciliano, Guimarães e Clarice. Não se trata, portanto, de questionar os fundamentos da "moldura reflexiva", de questionar este ou aquele nome, esta ou aquela obra, ou de propor nomes que teriam escapado ao olhar incisivo do crítico e historiador. Pelo contrário, a concordância nossa é total.  
É justamente porque a concordância é total que a discordância pode ser radical. É justamente porque a lista de João Alexandre é tão precisa, ao diagnosticar o melhor de nosso espírito moderno, que ela indica que este espírito chega ao seu fim. Somente no fim seria possível um gesto crítico tão exato. Logo, o sucesso da empreitada de João Alexandre é o sintoma de que aquele objeto que fora seu alvo já está inteiramente dominado, o que significa dizer, findado.
Não é por acaso, então, que o título do ensaio de Silviano é "Fechado para balanço". O Modernismo, com o trabalho de João Alexandre, alcançava seu fechamento. Só por isso podia ser, finalmente, posto na balança. O balanço só se dá depois de que o seu objeto já foi fechado. Ou seja, em nosso caso: o balanço de João Alexandre só pôde se dar porque o seu objeto, o Modernismo, chegara ao fechamento, fechamento cujo último acorde teria sido o do próprio crítico.
O próprio Silviano Santiago, em seu ensaio, resume, em poucas linhas, qual é o seu objetivo central no que concerne à apreciação do trabalho de João Alexandre.
Com isso, estamos querendo dizer que a leitura que João Alexandre opera no romance modernista/moderno brasileiro, se não for vista sob o efeito de fechamento, pode induzir o "crítico" menos atento a advogar os mesmos princípios, a mesma moldura, como critério básico tanto para a tarefa de apreciação crítica dos mais recentes romances brasileiros quanto para a atuação da criação jovem. Seria um equívoco fatal para a cultura brasileira.
Ora, isto é precisamente o contrário do que ocorre com Antônio Candido. Para ele, por mais que o Modernismo possa ser enquadrado em um certo período de tempo definido cronologicamente, são ainda os pressupostos históricos modernos, como vimos, que vigoram na tarefa da crítica literária, mesmo que mais nuançados e menos impositivos. Trata-se, então, ainda de uma "evolução", de um "padrão universal", todos esses valores caros à modernidade. Nesse sentido específico, os pressupostos do Modernismo não teriam encontrado ainda o seu fim, do ponto de vista de Candido. Pelo contrário, seriam eles, ainda hoje, os instrumentos mais importantes da crítica literária. Afinal de contas, isto é bem coerente com a abordagem de Antonio Candido, uma vez que, se a nossa "evolução" depende de uma adesão a um "padrão universal", é bem possível que isso não tenha acontecido ainda. O momento alto do Modernismo teria ficado para trás, e a dialética entre "localismo" e "cosmopolitis¬mo" estaria, assim, ainda na ordem do dia dos problemas brasileiros.
O discurso fácil da "globalização" não tirou de cena o problema da dialética, contudo, a transformou, não sozinho, mas com todo o processo de esfacelamento dos valores prezados pela modernidade. Essa dialética, que em Candido está compromissada, de ponta a ponta, com certo "padrão universal", passa a poder desenvolver-se de uma outra maneira, que não esteja apenas atrás de uma adesão a um suposto critério de julgamento estético e cultural único, quase sempre importado da Europa.
O projeto básico do modernismo - que era o da atualização da nossa arte através de uma escrita de vanguarda e o da modernização da nossa sociedade através de um governo revolucionário e autoritário - já foi executado, ainda que discordemos da maneira como a industrialização foi implantada entre nós. Acabou se concretizando através da opção pelo capitalismo periférico e selvagem, abafando outras opções sócio-econômicas dentro de semelhante projeto de progresso.
Para Silviano o projeto moderno e modernista foi cumprido. Não podemos negá-lo simplesmente porque não nos agradam os seus efeitos. Postura oposta à de Candido, que visivelmente ainda crê em uma reorientação desse mesmo projeto, jogando suas fichas na perpetuação do espírito moderno entre nós. Toda a abordagem de Candido se dá ainda no interior desse âmbito, tão marcadamente moderno. É o contrário do que ocorre com a abordagem de Silviano, que já se coloca um passo adiante da modernidade, assumindo a sua consumação, por mais que ela não se tenha dado da maneira como se gostaria.
Nesse panorama de esgotamento do moderno e, por consequência, do Modernismo, tão bem demarcado, segundo Silviano, pelo trabalho crítico de João Alexandre, a definição da nossa relação, local, com o internacional, o cosmopolita, volta à baila, agora precisando ser reposta sobre outras bases que não as tradicionais. Do mesmo modo, e talvez com maior urgência, nossa relação com o tempo precisa modificar-se, na medida em que a temporalidade moderna afundou em seus próprios paradoxos. Em linhas gerais, podemos enxergar todo o esforço crítico de Silviano como um esforço no sentido de pensar as letras e a cultura fora desses marcos já falidos e, por aí, criar novas maneiras de experimentar e fazer literatura.
Segundo ele, a "evolução literária, como nos alertam os formalistas russos, se elabora mais por deslocamentos de forças do que pela noção linear de evolução". Ora, toda a ideia de um "padrão universal" a partir do qual é considerada a "dialética" entre "localismo" e "cosmopolitismo" depende dessa noção linear de evolução. Sem ela, quebra-se a possibilidade de se pensar num "padrão universal", pois nenhum padrão pode arrogar-se, se a história não é linear, a universalidade. Assim, somos obrigados a redefinir essas questões em seu mais íntimo modo de ser. Não por acaso, em outro lugar, Silviano iria sugerir que lêssemos o Modernismo por um viés pouco usual, a saber, o da tradição, e não o da ruptura.
A preocupação de Silviano, portanto, é a de formular novas maneiras possíveis de se fazer história da literatura, isto é, de experimentar a literatura. Em uma época como a nossa, na qual o modelo temporal moderno perdeu grande parte de seu vigor, uma tal preocupação pode ser muito importante. Ela nos abre portas para tentar indicar e construir caminhos outros que nos levem até a literatura.









Pesquisa feita no site:  In: http://www.letras.puc-rio.br/unidades&nucleos/catedra/revista/8Sem_18.html
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 05/03/2015
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