João Bosco do Nordeste
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Textos
Literatura, Modernismo e Modernidade: Significados e desdobramentos.
DIAS, Márcio Roberto Soares & ROCHA, Flávia Anínger de Barros (orgs). Literatura, Modernismo e Modernidade – significados e desdobramentos. Vitória da Conquista: Edições, UESB, 2013.

A palavra “moderno” serviu como um importante ponto, senão de mudança, , pelo menos como referência, como foi o caso da Teoria Literária, a Sociologia, a Antropologia. A Antropologia foi pensada como um estudo científico, cujo objeto de análise são os povos tradicionais (pré-moderno ou primitivos).
O amplo movimento intelectual e cultural quase desenvolveu no ocidente ficou conhecido como “modernismo”.
No 1º momento: primeira metade do século XX.  Era colonial.
No 2º momento: Sociedade pós-colonial (décadas de 1950 e 1960)
No 3º momento: a modernidade agônico (de agonia), na visão dos “constrangidos” intelectuais dos anos de 1980.
No 4º momento: a modernidade é entendida como um objeto etnográfico (história da origem das raças, sem analisar). Hoje manifesta-se pelo enfraquecimento dos pressupostos fundamentais das Ciências humanas e o seu lugar no mundo.

Para Marx, a modernidade é um artifício de ir concentrando o poder e energia, sem precisar vincular-se a compartilhar propósitos sociais.
Marshall Berman percebeu que nada é permanentemente sólido na modernidade, e se fraturam e evaporam sob a pressão de outra ordem que se aproxima, alterando o funcionamento de tudo.

Sobre os capítulos do livro:

No 1º capítulo: (Camilo Cavalcanti) – Sobre o Parnasianismo
A partir da análise da Semana de Arte Moderna, de 1922, o professor Camilo Cavalcanti questiona a existência da modernidade no Brasil no século XIX. Porque não houve crítica no processo o sentido do modernismo e da modernidade. O modernismo brasileiro acreditou ter exclusividade nos aspectos modernos, negando as novidades do fim do século. Por isso ficou antipático com todos os outros estilos literários.
Por isso, ele a considera tendenciosa.
O programa modernista sofre dois problemas na estrutura, quando articula conceitos de nacionalismo e modernidade: sujeitam-se o estrangeiro e o antigo, com ênfase totalitária e narcísica de si mesmo.
Antes mesmo da Semana de Arte Moderna, Ronald de Carvalho publicou Pequena história da literatura brasileira (1919), inovando a crítica anterior de Silvio Romero, Araripe Jr. E José Veríssimo, ressalvando apenas o capítulo sobre o Parnasianismo.
Diz Camilo Cavalcante que Mário de Andrade não teria apoiado Ronald, se ele tivesse ido contra as suas críticas antiparnasianistas, de Osvald de Andrade de Manoel Bandeira. Mesmo em 1940, com o Modernismo consolidado. No que foi apoiado por Alfredo Bosi (1936 - ) em seus estudos posteriores.
Contrariando esses críticos, Antônio Soares Amora (1917-1999) sai em defesa do Parnasianismo, afirmando que “Se a obra de arte devia expressar os valores essenciais e perenes da realidade (assim compreendida), definida e perfeita, a sua estilização tinha de ser também perfeita” (Amora, 1967).
Afirma Cavalcante que o problema está na forma depreciativa com que é caracterizada a propensão ao afastamento social, seja na arte-pela-arte dos parnasianos, seja na torre de marfim dos simbolistas.
Três problemas foram destacados sobre a poesia pré-modernista e pós românticas, em relação ao movimentos Parnasianistas e Simbolistas no Brasil:
1º) A adoção de termos impróprios como “modernismo, modernidade e moderno”
2º) O dilema na repúdio da contradição entre o repúdio ao estrangeiro e ao antigo.
3º) A necessidade de abrir caminhos para uma nova estética, contra a poética anterior parnaso-simbolista.
Na realidade o estilo moderno já vinga desde o romantismo.

No 2º capítulo: (Alana El Fahl) – Eça de Queiroz
A professora Alana El Fahl analise o escritor português Eça de Queiroz (1845-1900), que transitou entre o passado e o futuro, mostrando traços modernos, dentro da visão da tradição e da significação do artista.
Os seus romances (O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878) e Os Maias (1888) ), tem como objetivo desmascarar os vícios burgueses, o materialismo, o adultério, o anticlericalismo, ou a hipocrisia da sociedade e as falhas morais daquele povo no século XIX.
A trajetória das obras posteriores vai-se multifacetando. Portando, Eça é moderno, ao trazer na sua obra em narrativas pretéritas, carregadas de ironia e uma crítica ao seu tempo presente.
Professora Alana diz que “O passado é modificado pelo presente e o presente é orientado pelo passado”.
No conto “A perfeição”, Eça de Queiroz recria uma passagem no Canto V da Odisséia, de Homero, centrando a insatisfação mesmo num paradisíaco cativeiro. Ulisses deseja-se manter mortal e imperfeito, dentro da sua condição humana.
G. Lukács situa o mundo grego como uma cultura fechada, e as formas modernas mostram uma existência marcada pela desorientação e nostalgia.
O conto moderno vai se estruturando sobre a mesma base do romance: o individualismo.
Na narrativa, Ulisses fala da seu imenso desejo de retornar à Ítaca, sua cidade. Eça faz uma relação com a sua vida em Portugal, onde viveu glórias no passado.
Um olhar atento à obra ficcional de Eça aponta para uma tentativa d correção moral da sociedade portuguesa, na falência das principais instituições como a igreja, o casamento e a família.
O tesouro, nos mostra um texto de matizes palimpsésticas (papiro primitivo), onde o símbolo do cofre tem dois significados: o valor material; e uma revelação.  
Comparando “O tesouro” e “O mandarim”, talvez estivesse escrito na tampa do tesouro as palavras finais de Teodoro no seu testamento: Só sabe o bem o pão que dia a dia ganha nossas mãos: nunca mates o Mandarim”.

No 3º capítulo: Flávia Aninger ( Guimarães Rosa)
A professora Flávia Aninger discute a modernidade como inovadora na transitoriedade e relativismo, quando o ser humano e a sua experiência no mundo se despedaçam, motivado pela solidão na antiguidade pré-moderna. A autora faz análise de “Tutaméia”, de Guimarães Rosa, mostrando que a obra não foi moderna de forma linear num tempo irreversível, que não encarcera mais o homem.
A modernidade começa com o descobrimento do duplo infinito: o cósmico e o psíquico. O sentido, ou a orientação deste mundo fechado, era posto em evidência por um saber que também era virtude, e a virtude, felicidade.
A modernidade instaura um tempo de transitoriedade e vive um relativismo intenso. O mundo moderno é marcado pela nostalgia da totalidade que nega e incessantemente busca. O sujeito moderno empreende continuas tentativas de retorno, e segundo Octávio Paz envolvendo três experiências humanas, na religião, (sagrado), no amor e na poesia.
A linguagem de Rosa se constitui em veículo de redescoberta de um mundo que, em sua finitude, pode comportar infinitos.
Esse retorno estabelece uma conexão com o sagrado, religando-se a outro tipo de vida, e Paz conclui (1982, p. 163) que a ideia do regresso está presente em todos os atos religiosos, todos os mitos, todas as utopias, que Rosa propõe num encontro com o sentido da existência em caminhos de retorno, ordenação e equilíbrio, traçados entres formas fragmentadas e carentes de sentido.
Em Tutaméia, obra publicada meses antes da morte de Guimarães Rosa, em 1967, quarenta conto breves são narrados em quatro prefácios com arte poética.
Por apresentar riqueza nos detalhes regionais, é possível que a escrita possibilite ao leitor comum ver, em primeiro lugar, o pitoresco das paisagens, do caos, e dos personagens.
A ordenação dos contos mostra uma viagem do conhecimento de cada indivíduo através da memória. Santo Agostinho constata que a potência da memória é própria do espírito humano, mas esse espírito não é capaz de apreender todo o seu ser (Agostinho, 2003 p. 218)
Cada etapa da viagem em Tutaméia está cheia de graça e revelações, em direção ao caminho da transcendência.

No 4º capítulo: Maria das Graças (Clarice Lispector) – O diário desfigurado de Água viva:
A professora Maria das Graças mostra que a escritora Clarice Lispector, tida como modernista, rompe o modo de fazer literatura em sua época, nas obras Objeto gritante; e Água viva (1973) .
Em 1971, na primeira versão de Água vida, chamado de Atrás do pensamento: monólogo com a vida, a autora já vê uma oposição entre a arte abstrata e figurativa, sendo o abstrato, para ela, o próprio figurativo, só que o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil.
Foi algo escrito de maneira totalmente diferente da Clarice até então, ao que ela mesma esclarece: “Eu vinha escrevendo esse livro há anos, espalhados em crônicas de jornal, sem perceber, ignorante de mim que sou, que estava escrevendo o meu livro. Sei que o que eu escrevo aqui não se pode é um grito. Um grito! De cansaço. Estou cansada! (Lispector, 1994).
Sobre as máscaras que todo ser humano usa ao longo da vida, Clarice afirma em “Persona”, publicado no Jornal do Brasil, em 1968, que ao longo da vida essa máscara pode cair. “Já nem sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam no rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir. É a liberdade horrível de não ser”.
Pelo que podemos perceber, Clarice valorizava mais o que escrevia em livros que em jornais, em espaços reservados para as suas crônicas semanais.
Silviano Santiago afirmar que “a partir dos anos 1920, com Mário de Andrade e Osvald de Andrade, e partir dos anos 1940, com Clarice Lispector e Guimarães Rosa, as subdivisões tradicionais de gênero ficcional (romance, novela, conto, crônica) foram contestadas de maneira radical” (Santiago, 2006, p. 159)
Em àgua vida, Clarice opta pela repetição de palavras e de frases, o que volta a fazer em Perto do coração selvagem.
Gostava tanto de escrever, que disse “Eu acho que, quando eu não escrevo, eu tou morta”. (Lispector, 1977)
O silêncio, abismo da narrativa é previsto por ela em Água viva, ao falar com o seu leitor: “Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio”. O conto seria a narrativa da sua vida inventada?

No 5º capítulo: Márcio Dias (Carlos Drummond de Andrade) – Fantasmagorias da modernidade.

O professor Márcio Dias, um dos organizadores do livro, mostrando que o solo da recordação na literatura não tem como base somente na modernidade, mas muitos autores tiveram essa mesma preocupação de buscar na memória a sua fonte criadora, onde o ser humano se sente impotente diante da existência e a inexorabilidade da morte. Não se ajustando à sociedade industrial, mas consciente da sua situação, o artista se sente excluído e pensa uma maneira de reconstruir o tempo antes da sua ruptura com o mundo.
Na análise lírica da obra Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade, percebe de um lado, o sentimento de uma aceitação temporária entre o “eu e o mundo”; e de outro lado a disposição utópica de vencer o hiato que cinde a criação artística e a práxis.

O livro discute a modernidade e o modernismo sob perspectivas múltiplas, de acordo com andamento dos projetos de pesquisas dos profissionais que elaboraram cada um dos capítulos.  

Em seu livro “1930: a crítica e o Modernismo, publicado no ano de 1974, o crítico João Luiz Lafetá, ao analisar as duas fases do Modernismo brasileiro, entende a primeira como um projeto estético, ligado principalmente em relação à linguagem. A segunda focada principalmente na reflexão sobre a função da literatura e das relações entre a arte e sociedade, sobressaindo um projeto ideológico”. (LAFETÁ, 2000).
Em verdade, a poesia de Drummond não consegue expurgar de si os elementos subjetivos. Mesmo quando quer dar ênfase deliberada às questões sociais, essa subjetividade agigantada invade o poema, provocando “uma espécie de exposição mitológica da personalidade”. (CANDIDO, 2004)
Ambientada no cenário urbano de Belo Horizonte, no final da década de 1930, a “Canção da Moça-Fantasma” de Drummond, incluída em Sentimentos do mundo, reflete o paradoxo de uma cidade cuja modernização da paisagem não encontra correspondência numa modernidade cultural da sua sociedade.
Na modernidade, o atrito do homem com a sociedade tem como cenário privilegiado a grande cidade, e o resultado desse atrito, segundo Drummond, é geralmente a condenação do indivíduo ao ostracismo e à solidão.
A palavra “moça” no sentido regional mineiro, significa mulher virgem, donzela, pronta para a cópula, mas ainda não conhece o sexo. Fantasma, por sua vez, refere-se a princípio, à suposta aparição de pessoa morta ou de sua alma, aparência destituída de realidade, puramente ilusória.
A linguagem tipicamente católica de Drummond, como “por todos os séculos, dos séculos”.
Segundo Marshall Berman (1986), essa postura é contrária à linguagem da modernidade, quando toma palavras e expressões por empréstimo às línguas estrangeiras modernas faladas nos países economicamente mais desenvolvidos. Conclui que essa linguagem é vital e atraente porque é a internacional da modernização.
Enquanto o eu lírico do poema parnasiano encontra nas estrelas uma linguagem compreensível em relação à sua alma, a persona lírica de Drummond, esse ser que vaga pela noite da grande cidade experimenta, ao contrário, a impossibilidade de estabelecer qualquer diálogo com o ambiente que a cerca, num cenário inteligível.
Para Drummond os últimos registros de uma manifestação poética do sublime estão associados aos simbolistas Cruz e Souza, Alphonsus Guimarães e Augusto dos Anjos. E ao questionar e ironizar sentimentalmente o fundo católico da sua persona lírica, o faz com uma memória fantasmática de dogmas cristãos que assombra a sua consciência e a sociedade.






REFERÊNCIA:


DIAS, Márcio Roberto Soares & ROCHA, Flávia Anínger de Barros (orgs). Literatura, Modernismo e Modernidade – significados e desdobramentos. Vitória da Conquista: Edições, UESB, 2013.
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 05/03/2015
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