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Textos
João Ubaldo Ribeiro - Construções identitárias na obra de - Por Rita Olivieri-Godet
Segundo a autora, a problemática identitária é o centro temático da obra de João Ubaldo Ribeiro, mas nunca foi um processo fácil de entender e pacífico de se aceitar. O que os críticos destacam é a maneira de abordá-la, dentro de um contexto diverso de procedimentos, buscando uma identidade nacional que não é estática, homogênea ou natural, por isso deve ser pensada numa reflexão mais ampla. A obra é polifônica é possibilita constatar o “rumor social” incorporado dentro de diferentes discursos sociais num processo de desconstrução numa prática discursiva transgressora, irônica ou paródico dos elementos culturalmente marcados, pregando a palavra a sua marca ideológica.
As múltiplas representações identitárias remetem a imagem que história tem mostrado nos seus diferentes conflitos pela intolerância e discriminação, inclusive quando o Estado-nação brasileiro expõe seus mecanismos de exclusão e marginalização social, cabendo à literatura fazer a representação crítica, mostrando o confronto das classes sociais e sue conflitos raciais, culturais e regionais.
A obra de João Ubaldo Ribeiro é primorosa ao abordar diversos aspectos da formação social do povo brasileiro em busca da sua construção identitária, desde registros históricos dos meandros das raízes e da memória cultural da nação brasileira, vivida pela comunidade de uma época. É um quadro plural e conflituoso.
Algumas representações da problemática identitária na obra do autor foram destacadas por Rita Olivieri:
a) Diferentes núcleos identitários (nacional, regional e grupal);
b) Relações de identidade e alteridade (são questionadas e os preconceitos são desvendados)
c) As categorias nas quais a nação brasileira foi pensada na época de sua formação;
d) As marcas que distintivas das pessoas nos seus grupos sociais;
e) São expostas as práticas dircursivas nos processos de integração, rejeição ou aculturação.

Nos quatro capítulos do ensaio ela analisa as obras Viva o povo brasileiro, Vila Real, o Feitiço da ilha do pavão, A casa dos budas ditosos, as crônicas do livro Um brasileiro em Berlim, além de contos do livro Já podeis da pátria filhos, estabelecendo conexões entre as obras de Ubaldo e as questões identitárias, demonstrando as recorrências, significados e abrangência, focando a literatura brasileira sobre o prisma da análise das identidades, como ponto de partida para situar o lugar ocupado por João Ubaldo nesse universo temático contraditório entre a história oficial e a história real.
Percebe-se na obra que a problemática da identidade nacional não é homogênea, demonstrando eventos e contradições de representação plural da identidade brasileira, através do texto ficcional amparado teoricamente e estruturado na articulação das estratégias narrativas das personagens populares e da elite, apresentando as suas versões e contradições, no território às vezes até utópicos.
A obra polifônica desmascara estereótipos na pluralidade de vozes, revelando os conflitos da formação identitária brasileira, marcada pelos dilemas da época e registros de intolerância e preconceitos diante de certas manifestações da diversidade cultural e identitária, tentando explicar melhor a formação da sociedade em que vivemos.

O ensaio da autora é dividido em quatro capítulos.

No primeiro capítulo – “Identidade, território e memória” aborda Viva o povo brasileiro;

No segundo capítulo – “Identidade, território e utopia” trata dos romances Vila real; e o Feitiço da ilha do pavão.
No terceiro capítulo – “Voz e identidade” analisa A casa dos budas ditosos, do ponto de vista da voz autorial; Viva o povo brasileiro e Diário do Farol, sob os pontos de vista da violência e do sujeito totalitário;

No quarto e último capítulo – “Estratégias narrativas e problemática Identitária” aborda alguns contos e as crônicas contidas em Um brasileiro em Pequim – da relação do autor com a alteridade (valor da outra pessoa) é abordada com originalidade.

Questões introdutórias

Nascido em 1941, o romancista baiano João Ubaldo Ribeiro desde pequeno já gostava de literatura, passando uma grande parte da infância em Sergipe, onde seu pai era militar.  
Na Bahia foi jornalista do Jornal da Bahia, e da Tribuna da Bahia. Formou-se em direito, mas nunca exerceu a atividade.
Em 1994 entrou para a Academia Brasileira de Letras.
A autora faz um estudo bem detalhado co composto da obra de João Ubaldo, e verifica a atenção que ele dá às questões sociais, destacando temáticas diversificadas, no desejo de denunciar os procedimentos de colonização (cultural, econômica e política), utilizando de vários argumentos literários como a citação e a paródia, para fazer com que seu texto intertextual por sí só atinge os objetivos.
O seu primeiro romance foi Setembro não tem sentido, de 1968.

Literatura brasileira e problemática identitária: breve apresentação

É possível quer a temática identitária na literatura brasileira seja referência constante desde a época do romantismo (1836 a 1881), contextualizada dentro da concepção de uma nação jovem, cuja emancipação ocorre em 1822, com o Grito de Independência.
O romantismo se utiliza de símbolos e imagens da especificidade brasileira como o índio e a natureza exuberante sendo que ao mesmo tempo em que expõe a tensão entre a imitação do modelo e a contradição da nossa etnia e cultura.
Daí nasce o nacionalismo romântico que é tema de Machado de Assis num artigo publicado em 1873, reconhecendo como positivo o “instinto de nacionalidade”, mas critica a artificialidade dos textos, que só fazem alusão à “cor local” e que deveria ser universal.


Vila Real

É o quarto livro de João Ubaldo Ribeiro - publicado em 1979, tem como enredo a luta do homem sertanejo brasileiro pela terra, ao registrar o processo de espoliação de que se depara o grupo de posseiros nômades liderados por Argemiro, em busca do enraizamento e a construção da sua identidade, desenvolvendo uma crescente resistência a essa brutal dominação capitalista ocidental.
A história faz lembrar a guerra de Canudos de Os sertões, nos seus conflitos de espaço e tentativa de apagamento das memórias.
A interdição do assentamento é um embate militar, inserindo o leitor desde o primeiro capítulo na problemática da luta sangrenta entre as forças de Argemiro (dos assentados) e as de Genebaldo (dos novos proprietários que predizem o Progresso).
O conflito central se desencadeia na narrativa com a chegada de uma companhia estrangeira de mineração à cidade de Vila Real e a expulsão brutal e violenta dos habitantes do local, com base “nos papéis que guardavam em seus barracões gelados” os que se arvoraram como novos donos da terra. Coloca-se, assim, de maneira direta a questão da identidade nacional sob um prisma eminentemente político, numa narrativa em zigue-zague temporal e espacial, levando o leitor a acompanhar a trajetória de Argemiro e o grupo de sertanejos por ele liderado na luta pela reconquista de Vila Real.
Outro aspecto importante é a construção do lugar pela simbologia dos topônimos: “Barriga da mãe” lembra a função protetora que o lugarejo exerce sobre as pessoas do grupo de Argemiro, como um ventre materno. “Aratanha” é o vale árido que não tem valor, onde está Vila Rica. Um termo que soa como negativo, um espaço infernal que condena o homem ao sofrimento e morte. Faz lembrar também Os sertões, de Euclides da Cunha, fazendo também ligações com a Bíblia, aflorando o gosto quase que imposto, por uma religiosidade que dê esperança e minimize os sofrimentos, através da presença do padre Bartolomeu.
Antônio Conselheiro também é lembrado, ao tempo em que Argemiro é até comparado com a figura de Moisés, chefe do povo oprimido que deve ser levado á terra prometida.
Como Maria da Fé em Viva o Povo Brasileiro, Argemiro não se entrega ao imobilismo. Vai reagindo enquanto tem forças para lutar.
O autor tenta criar um clima de solução desesperada, com a inserção do mito “Filho de Lourival”, uma estratégia na tentativa de mudança na ordem social.
Argemiro não crê que seja um deus, mas defende a idéia da morte para escolher a vida.  
Os invasores chegam e tomam posse de tudo, fazendo um massacre parecido com a guerra de Canudos, expulsando os moradores que resistiram bravamente e foram vencidos, como acontece com as vítimas do movimento de desterritorialização imposto pelos colonizadores.

O Feitiço da Ilha do Pavão

João Ubaldo Ribeiro penou para terminar o romance "O Feitiço da Ilha do Pavão", a história de uma ilha imaginária na costa da Bahia do século 18. Teve de interromper e recomeçar tudo do início umas duas ou três vezes. Largou o livro para ir à Copa do Mundo de 94, nos Estados Unidos. Voltou e foi internado com problemas cardíacos. O encanamento da sala em que ele trabalha estourou etc.
"Quando você inicia um livro e larga, ele desanda", diz. Em "O Feitiço da Ilha do Pavão" há índios produtores e consumidores de cachaça, autoridades corruptas, belas negras, inquisidores hipócritas, um quilombo e muito sexo numa fantasia tropical, que representa um microcosmo evidente de uma certa imagem de Brasil, tanto pela tipificação caricatural dos personagens como das situações.
A ilha foi fundada por Utopos. Tanto ele como o protagonista Capitão Cavalo manifestam assim o desejo de se isolar do mundo das cidades.
Capitão Cavalo mora do Sossego Manso, no topo do monte pedra preta.
Como produtor dessa utopia de um lugar que não existe, o romance propõe emancipações do território brasileiro. Um Brasil meio maluco, afastado, mas brasileiro.
Lembra Liliput, terra imaginária do Livro As viagens de Gulliver – de Jonathan Swift.
Sobre os mitos das ilhas afortunada, lembra Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.
O lugar não é nada perfeito. Borges Lustosa representa o poder colonial.
Ocorre outra utopia, a desconstrução da alforria dos escravos feita pelos brancos, enquanto o quilombo governando por um negro escraviza os outros negros.
A cidade de São João é o retrato da nação brasileira. Mas é no Sossego manso, de Capital cavalo que está a utopia de uma sociedade fraterna igualitária e livre.
Chega na ilha Hans Flussufer, alemão que fugiu das perseguições religiosas da Europa e o navio naufragou próximo da ilha. Se integra perfeitamente à cultura autóctone (dos habitantes do lugar). Acreditava em Deus e nas divindades dos índios, além das crenças dos negros. Acreditava em tudo, para não morrer. Lembra Hans Staden, da saga Meu querido canical, de Antônio Torres.
Os heróis romanescos de João Ubaldo passam por Argemiro – em Vila Real; Maria da Fé – em Viva o povo brasileiro; e o Capitão Cavalo – em O feitiço da Ilha do Pavão.
Relembrando, tanto Vila Real como Viva o povo brasileiro trabalham o “maravilhoso” como fonte de inspiração e forma de integração do irracional na prática revolucionária.

Os sonhos de liberdade a partir de revoluções e resistência dos oprimidos pelos opressores é uma tônica na Ilha também, quando ocorre um levante no quilombo comandado por Juliano, rebelando e libertando os escravos.  O Reino de Afonso Jorge chega ao fim.
Como emancipar esse povo agora? Os projetos de colonização estavam acabados?

A CASA DOS BUDAS DITOSOS

Esse romance sobre Luxúria faz parte da coleção Plenos Pecados.
O mistério do romance é saber o seu gênero. O autor alega, não ser ficção e sim uma historia verídica: um misterioso pacote foi deixado em sua portaria, eram os originais de A Casa dos Budas Ditosos, onde nós é apresentado uma personagem fascinante e excepcional em todos os sentidos: CLB, uma mulher de 68 (pag. 173) ou beirando os 70 anos (pag. 168), nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, que jamais se furtou a viver - com todo o prazer e sem respingos de culpa - as infinitas possibilidades do sexo.
É uma narrativa pouco comum, às vezes chocante, às vezes irônica e sempre provocadora, envolvendo um dos pecados mais indomáveis e capitais: a luxúria.
Seriam as memórias desta senhora devassa e libertina um relato verídico? Ou seria apenas uma brincadeira do autor? Nunca saberemos. O importante é que ninguém conseguirá ficar indiferente à franqueza rara deste relato e seu humor corrosivo.
Seria um depoimento socio-histórico-lítero-pornô. Um romance impudico e provocador. Às vezes chocante, às vezes irônico, sempre instigante. Com a deliciosa sugestão de que, realmente, não existe pecado do lado de baixo do Equador.
No texto o autor aborda abertamente temas como incesto, zoofilia, drogas, orgias, relações interpessoais, saudade, morte e mostra abertamente os sentimentos e sensações humanas de uma forma franca e livre, com doses de ironia, nostalgia e humor, a protagonista, que esbanja conhecimento de causa e nenhuma vocação para o puritanismo, relata as mais diversas situações vividas por alguém que parece ter dado a palavra luxúria, seu real significado.
A luxúria pertence a um dos Sete pecados capitais, o delicioso pecado da carne, do desejo, do gozo.



REFERÊNCIA


OLIVIERI-GODET, Rita. Construções Identitárias na Obra de João Ubaldo Ribeiro. Brasília; Hucitec, 2009.
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 05/03/2015
Alterado em 12/03/2015
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