João Bosco do Nordeste
Professor Mestre em Educação e Administrador empreendedor
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Textos
Comendo um papagaio com farofa
COMENDO UM PAPAGAIO COM FAROFA

Numa estrada de chão entre o centro oeste e o norte de Literacity, ainda um pouco desabitada e desconhecida pela grande parte dos motoristas, seguia um caminhão que saiu de madrugada, passando por aquela estrada pela primeira vez, sendo dirigido por Tião de Ana, um motorista experiente aos quarenta e oito anos, mas perdido por mais de dez horas pelo caminho até aquele momento, numa paisagem sem casas, postos ou restaurantes. Todo alimento que existia na boleia do carro, desde bolachas, farinha e carne seca, já havia acabado, bem como ainda havia a preocupação com o combustível do caminhão, que só daria para mais umas duas horas.
Ao terminar uma curva ascendente, Tião viu uma casinha pobre com o nome de Reistoranti da india.
- Ôba ! Parece que tem um restaurante ali. – Pensou alto.
Encostou o caminhão, desceu e entrou naquela casinha ainda rústica. Ao entrar, viu um homem e uma mulher com aparência de índios.
- Boa tarde! Estou há mais de dez horas na estrada que eu não conhecia. Estou morrendo de fome. O que tem para comer?
O índio respondeu numa língua enrolada misturada com o Português:
- Nós tem frango com farofa de parma (palma forrageira é a base da alimentação volumosa para o rebanho) que tamém selve de alimento para matá a fome dosumanos, se fica bem cuzido.
- Quanto é o preço? Qual é o tipo de cartão que vocês recebem? – perguntou o motorista.
- O prato é dez reau, mas aqui não tem esse negócio de cartão. É só reau. - respondeu
O motorista enfiou a mão no bolso e pegou quatro notas de R$ 2,00 e pediu:
- Não tenho mais dinheiro. Só tenho oito reais, um cartão de crédito e o motocard, que é o cartão dos motoristas abastecerem os seus carros nos postos de combustíveis. Pode fazer meio frango com farofa de palma?
A resposta do índio foi dura para com o caminhoneiro.
- Como vou matá meio frango no quintár? Num tem meio frango não. Ou dez ou nada.
O motorista parou ... pensou ... olhou para o canto da sala e viu um papagaio em cima de uma pia encardida, onde os clientes lavam as mãos antes da refeição. Num pedaço de madeira acima da pia os fregueses colocam moedas para agradar um papagaio falador, que canta o dia todo, e teve uma ideia:
- Senhor índio, se eu quiser comer este papagaio pequeno aqui de cima com a farofa, pode ser oito reais?
O índio olhou para a sua esposa, que balançou a cabeça afirmativamente, pois lá no mato tinha muitos papagaios e eles poderiam capturar outro. E gritou:
- Muié, prepara o louro!
Virou-se para o caminhoneiro e ordenou:
- Vá lavá as mão senhor caminhoneiro, enquanto a muié apronta sua cumida.
O caminhoneiro se dirigiu até a pia, abriu a torneira e começou a lavar a mão, quando ouviu uma voz que fazia um barulho:
-Psiu. Psiu.
O motorista olhou para cima e viu o papagaio empurrando com uma das suas patas uma moeda de um real de cima para baixo. O motorista pegou e com o mesmo gesto, o papagaio jogou outra moeda. O motorista pegou.
O caminhoneiro ficou intrigado com aquela situação, quando ouviu o papagaio dizer:
- Vá comer seu frango com farofa, seu filho da P.
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- Conto do autor, no Livro Rapsódia de um contador de histórias, Editora Becalete, 2018.
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 07/05/2015
Alterado em 27/11/2018
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