João Bosco do Nordeste
Professor Mestre em Educação e Administrador empreendedor
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Textos
Amor e o desejo – o que vem primeiro?
AMOR E O DESEJO – O QUE VEM PRIMEIRO?

Os verdadeiros homens primeiro desejam, e somente depois vão amar. O desejo sempre nasce antes do amor. Ninguém ama o que não se deseja. A alma existirá eternamente estando do corpo separado? Assim também é o amor: quanto mais interior, mais permanecerá vivo.
A idade da mulher de um homem só é igual a do homem que envelhece junto de uma só mulher. As idades andam juntas e ninguém percebe a do outro passar com o tempo, são assim como duas bandas de uma lua crescente.
Dona Lua (Luana) e Seu Céu (Celso) eram assim. Casal de uma só pessoa.
Casados e com dois filhos Cela e Luso – nomes do resultado da união dos nomes dos pais, como era uma tradição. O casal e os filhos sempre foram muito felizes.
O namoro teve início num parquinho da quermesse da igreja, na festa do padroeiro, chegando praticamente no mesmo instante no carrinho de pipoca. Eles se olharam e imediatamente se flertaram, ambos com uns 15 anos. Estavam com desejo de comer pipoca ao mesmo tempo, e começaram um diálogo:
- Você gosta de pipoca? – perguntou ele.
- Gosto, sim. – confirmou ela.
- Que bom. É uma coincidência. Você vai andar em algum brinquedo?
- Gosto mais da roda gigante. Tenho medo dos brinquedos ligeiros e de terror.
- Que bom, porque eu também gosto. – ele encerrou o papo.
Cada um pegou a sua pipoca e ele, num atitude de cavalheiro, como era a tradição naquele tempo, pagou as duas.
Ali mesmo ela agradeceu e saíram, cada um para seu lado, procurando reencontrar seus parentes. Ela não tirava da mente aquele rosto e aquela voz, e ele parou e ficou olhando os passos dela se afastando e de vez em quando olhando para trás.
Passados uns 15 minutos ele foi ao caixa e comprou o ingresso para a roda gigante, pensando no gosto daquela menina. Pensou alto:
- Quem sabe eu a veja lá de cima, ou a encontre naquele brinquedo também.
Era aumentando o desejo de reencontrá-la.
Foi andando em direção à roda gigante, que de longe era tão pequena, mas a cada passo que chega mais embaixo do equipamento, tornava-se maior. Ao chegar mais próximo, percebeu que havia uma longa fila. Tomou posição e ficou esperando a fila andar, olhando para todos os lados para ver se a enxergava, mas aquele rosto se escondeu no meio da multidão.
– Que pena! Acho que ela foi embora. – murmurou.
Com o passar do tempo a fila se aproximava da cerca da roda gigante, onde entrariam e teriam acesso à cadeira do brinquedo. Quando olhou para trás, conseguiu visualizá-la ali, há umas 15 pessoas antes na fila, e parecia que ela havia chegado ali naquele momento, pois antes não a avistara. Vendo também que ela o avistou, acenou e chamou:
- Meu amor, venha para cá!
Falou com o pessoal da fila que ela era sua noiva. Ninguém contestou e aceitaram a vinda dela para aquele lugar furando a fila para ficar junto do “noivo”.
Ela quase caiu de costas quando chegou perto, pois ele lhe deu um beijo no rosto e pegou em sua mão, para colocá-la à sua frente. Era o desejo de amá-la.
Ela ficou em silêncio, sem entender nada, por enquanto. Logo eles foram chamados e entraram numa mesma cadeira, para continuar vendo o mundo girar. Quando a roda começou a rodar, ela perguntou:
- Você é louco? Como você fez isso? Você não é meu noivo!
- Não? Ninguém foge do destino, e se o nosso era ficar juntos, aqui estamos. Como é o seu nome? Tem namorado? Que tipo de filme você gosta? Está com medo aqui em cima? Posso pegar na sua mão? Onde você mora?
- O que é isso? Um interrogatório? Não estou com medo aqui em cima, e não pode pegar na sua mão ainda. Mas já que é assim, também vou perguntar: Como é o seu nome? Tem namorada? Que tipo de filme você gosta? Onde você mora?
Olharam um para o outro e deram uma boa gargalhada. Naquele momento a roda gigante deu uma freada e as cadeiras balançaram. Ela imediatamente agarrou as mãos dele com medo e deram outro sorriso ainda mais forte, que lá de baixo dava para ser ouvido.
Já que estavam parados mesmo, com calma se apresentaram, trocaram informações sigilosas de origem e gostos das coisas do mundo, que a nós leitores não interessa. Foi coisa do acaso, pois por acaso ele tinha uma namorada, que naquela tarde de domingo foi na casa de uma amiga assistir um filme, e ela tinha um namorado, que estava num clube desde a manhã, jogando bola com uns amigos.
Anos depois, juntos e em conversa reservada, ela disse a ele que naquele dia teve realmente desejo por ele, e ele não escondeu também que teve desejo nela.
Daquele dia em diante, pelos mil autofalantes, eles gritavam para todo mundo ouvir que o mundo de um agora também seria também o do outro, na música, letra e dança.
- Sabe quando uma pessoa sente sede e a outra já vem com a água sem ninguém pedir? Você é assim, é tudo para mim, mesmo quando eu não te vejo. – Disse ele.
Depois de dez meses entre namoro e noivado, eles casaram.
Era o desejo de ficarem juntos.
Uma vida inteira dedicada ao amor, compreensão e respeito. Passaram os anos juntos, dois velhos unidos, com filhos criados e encaminhados, testemunhas daquele amor, a partir apenas de um sentimento: O desejo de ser feliz!
Então: O que vem primeiro? O amor ou o desejo?

- Conto do autor, no Livro Rapsódia de um contador de histórias, Editora Becalete, 2018.
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 05/08/2015
Alterado em 27/11/2018
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