João Bosco do Nordeste
Professor Mestre em Educação e Administrador empreendedor
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Textos
A cerveja do velório
Um casal vivia uma felicidade infeliz, ou seja, para todos era uma felicidade, mas em casa eram infelizes, mas ele tinha boa quantidade de dinheiro, porque era dono de uma fábrica de velas, não aguentando muito calor de outras mulheres, que ele se derretia todo. Em família, mostravam uma aparente união, sendo “useiro” e “vezeiro” em fazer  churrascos para alegrar os amigos e os amigos dos seus dois filhos homens.
Os filhos, sabendo de tudo, ajudavam a farsa, seguindo em viagens com os pais e fazendo compras de bens. Tudo que o velho quisesse, eles falavam para a mãe dar, como uma forma de agradecer os benefícios econômicos e financeiros conseguidos pelo pai em suas atividades profissionais.
Num dia de domingo, por exemplo, durante um churrasco, aquele homem tomou com seis amigos nada menos que dez caixas de cervejas em garrafas de vidro. Isso foi apenas de meio dia até às 17 horas. Para brincar, os amigos perguntavam a ele:
- Você gosta de sua esposa?
- Sim. - Ele respondia.
- Você gosta de seus filhos?
- Sim. - Ele respondia.
- Você gosta de cerveja?
- Vixe! Arriégua! Affffiiiiiiiiiiiiii! Claro. Adoooooruuu! - Ele respondia todo eufórico.
Como tudo que é bom um dia se acaba, o homem foi acometido de uma doença incurável, passando um período internado e sem esperança.
No hospital recebeu algumas visitas, ficando muito chateado com as ausências dos “amigos da carne” que não apareciam ao redor da cama no quarto do hospital, nem aqueles que aos domingos sempre estavam ao redor da churrasqueira em sua mansão.
Um dos visitantes, e dos seus melhores amigos, depois de saber da situação terminal, chegou à cabeceira da cama e perguntou:
- Meu amigo, se você quisesse uma coisa que lhe faria bem nessas duas semanas aqui internado, o que gostaria de fazer?
O enfermo aproximou a boca ao ouvido do amigo e soprou duas palavras:
- “uma cervejinha”.
O amigo disse que iria falar com o médico, e que ele aguardasse um pouco. Saindo do quarto foi procurar o médico no corredor do hospital e perguntou baixinho:
- Doutor, meu amigo do apartamento 31 quer saber se pode tomar uma cervejinha.
O médico pensou e informou:
- Rapaz, na situação em que ele está uma latinha de cerveja não vai alterar nada. Ele tem poucos dias de vida, em face do agravamento da doença. Mesmo assim, não posso autorizar. Fica a cargo da família.
O amigo voltou ao quarto e falou com a esposa do enfermo sobre as  conversas com o marido dela e o médico. Naquele instante ela lembrou do que os filhos lhe disseram: “Dê tudo o que o pai quiser”. Como também não via nada demais, afirmou ao amigo que mais tarde iria comprar uma ali perto e daria escondido do médico e das enfermeiras.
Aquele resto de dia foi um desespero e muita piora do quadro de saúde, pois tarde da noite a doença se agravou de uma forma que tiveram de levar o doente para a UTI - Unidade de Terapia Intensiva. As notícias foram só piorando, e antes do amanhecer a família foi informada do que ninguém esperava ocorrer tão rápido: o falecimento.
Depois de toda aquela burocracia da liberação do corpo e da chegada da funerária “Deus te acompanhe”, levaram o caixão para ser velado num espaço adequado na cidade durante todo o dia. O enterro só ocorreu às 17 horas.
Foram horas de tristeza, orações e comentários da vida pregressa, farras, churrascos e tudo mais que aquele “amigo” fazia para agradar aos mais chegados.
- Que perda! Acabaram as nossas farrinhas semanais. – comentaram.    
Num certo momento, aquele amigo que estava sempre mais presente no hospital perguntou à viúva:
- A senhora deu aquela cervejinha a ele ontem?
- Vixe rapaz, esqueci de dar! – comentou sussurrando a viúva.
- Que pena! Era o seu último pedido. Isso pode ser uma praga que a senhora vai pagar até o resto da sua vida. Como pôde esquecer uma coisa dessa, minha senhora? Se fosse comigo, eu nunca lhe perdoaria.
A mulher arregalou os olhos e questionou:
- Existe essa praga de quem não dá cerveja ao morto pode ter problema depois? Vixe! – Ela ficou muito preocupada, mas disseram a ela que é costume os amigos beberem nos velórios, lembraram até de um livro de Jorge Amado, o Quincas Berro D'água.
Mais consciente saiu de mansinho e foi ao bar ali perto, comprou uma latinha de cerveja e colocou dentro da bolsa. Esperou um momento quando ninguém estava olhando, disfarçou jogando um lenço sobre o rosto do morto, abriu um pouco a boca e derramou quase meia lata adentro, mexendo no gogó com a mão esquerda para ver se o líquido descia melhor, procurando satisfazer aquele último desejo. Não deu para empurrar mais. Ela recolheu a lada e enrolou no lenço de novo e levou para o toalhete do local do velório, jogando-a na lixeira.
Na hora marcada ocorreu o enterro e ela estava mais aliviada.
- Pelo menos vai sentir o gostinho lá na eternidade. - Pensou a viúva toda desconfiada.
A partir daquele dia, a mulher que não bebia passou a beber mais e mais, até morrer alcoólatra, com cirrose hepática.
Ninguém conseguia explicar aquela mudança.
- Será que foi o amor?  Será que foi a saudade? Ou teria sido aquela  praga da cerveja no velório?
Mas e o Quincas?
João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 13/05/2016
Alterado em 14/05/2016
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