João Bosco do Nordeste
Professor Mestre em Educação e Administrador empreendedor
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Textos
A LENDA DO INDIO ARTURI
Em Literacity, cidade no meio de uma grande floresta ao norte do continente, vivia numa tribo o índio pescador Arturi Guará – que significa Gavião com roupa de guerreiro. Ainda menino cortou um caule grosso de uma árvore e o jogou no rio, mas com a força em atrito com o vento, o pedaço de pau fez um barulho parecendo um assobio. Ele curioso, cortou outro pedaço e repetiu o gesto. Novamente ouviu um som. Ele então passou a imitar o som como se fosse da alma de um pássaro mágico, que com o seu canto poderia livrar qualquer pessoa da tristeza.
O pequeno índio andava muito com o pai, e passados alguns anos ele foi esquecendo daquela lembrança de imitar o passarinho, conhecendo novos técnicas de pescar e caçar, os nomes das plantas e a finalidade de cada uma na saúde. Até que um dia, já um homem feito, estava ao lado do rio pescando, lembrou-se daquele tempo em que cortava o caule de determinada árvore e jogando na água fazia aquele barulho.  Levantou-se e ao andar encontrou a árvore, e com a sua faca cortou um pedaço da árvore, oportunidade na qual o pai perguntou:
- Filho, sabe que árvore é essa?
- Eu acho que é a casa do pássaro mágico. O senhor já ouviu como ele canta?    
- Não, meu filho. Essa árvore você sabe que o nome. É o bambu brasileiro, que tem o nome científico de Bambusa vulgaris "vittata", muito usado para fazer papel.  
- Entendi meu pai. Vou jogar no rio, observe como parece um som de uma corneta daquelas que os irmãos índios fazem para soprar nas nossas celebrações.
E ao cortar um pedaço, voltaram para a beira do rio, jogando com força, e não é que fez um assobio mesmo?
- É um pássaro mágico que está dentro do bambuzal, meu pai!
O pai surpreso com a novidade e a criatividade do rapaz, orientou:
- Então vamos pegar outro pedaço e tentar soprar?
- Que boa ideia! – concordou Arturi.
Retornaram ao bambuzal e pegaram mais dois pequenos pedaços, e o pai foi orientado a fazer dois buracos com o bico da faca, testando e soprando, ouvindo o som cada vez mais bonito. Daquele dia em diante, o rapaz fez tantas flautas com os bambus, que em certos dias a mata parecia uma sinfonia.  
Já aos 22 anos, passando no rio com a sua canoa de pesca, viu uma linda índia sentada a beira da água. Fez um sinal de amizade e encostou à margem do rio e foi logo perguntando:
- Como é o seu nome? Como você é poranga (bonita), como a noite de lua cheia. Eu sou Arturi, índio da aldeia Santana, do outro lado do serrote da serra serrada.
- Meu nome é Anaqui, mas me chamam de Quiqui! Você também é um porangatu (bonito).
Ele disse que sabia soprar no bambu imitando um pássaro mágico. Ela não acreditou, e então ele pegou o pedaço de madeira roliça e soprou, o som imitava a palavra Arturiiiiii.
- Você entendeu que o som diz Arturiiiii?
- Não! Faz de novo.
Agora mais calmo, ele soprou:
- Arrrr! tuuuuuuu! Riiiiiiiii! Agora entendeu?
- É Arturi? Se for eu entendi. Muito legal.
- Que bom, então toda vez que eu fizer esse som, você já vai saber que serei eu. Mas o que você faz por estas bandas de mato? Está perdida?
Ela sorriu e respondeu:
- Não! Estou esperando o meu marido, o bravo e insuportável Cacique Jubá, da tribo Urupáriu, que atravessou o rio nadando e já vem de volta. Foi fisgar um peixe com a lança de pau. Ele tem quase duas vezes a minha idade, mas fui obrigada pelos meus pais a casar com ele. Me leva junto com você, pois não temos filhos ainda.
Ela falava baixinho e nesse momento o Cacique chegou e foi logo inquerindo:
- O que é que esse casca de pau amarelo quer, Quiqui? – puxando a mulher pelo braço.
- Não, nada. Ele é do outro lado da Serra serrada e estava descendo o rio pescando.
- Tá bom mulher. Vamos para casa? Outro dia vou levar você para conhecer outras matas daqui a duas luas, e lá ver a lagoa dos jacarés.
“Que jeito grosseiro de tratar a poranga Quiqui”. – pensou o rapaz já apaixonado.
Foi uma paixão que ele sentiu por ela, sem explicação, mas ele sabia que aquele amor seria impossível, porque o homem era Cacique bravo, que viajava sempre por uma semana para caçar.
Num dia desses, no qual o Cacique estava fora, ele foi visitar a tribo da amada e entrou na tenda, passando por debaixo da rede, pensando que a moça estivesse dormindo, mas ela viu e perguntou se ele era louco, pois tinha passado apenas uma semana do encontro deles na beira do rio e ele já aparecia para vê-la.
- Louco por você.
Deitando-se com ela na rede, abraçaram e se beijaram. Depois levantou-se e saiu se arrastando como uma cobra, para que ninguém o visse, entrando de volta na floresta, voltando para a sua tribo. Naquela noite ele não conseguiu dormir direito, por isso logo cedo, ainda escuro, foi procurar ajuda da sua mãe para acabar com aquele sofrimento, pelo amor que tinha a Anaqui, a sua Quiqui.. Ela era uma velha rezadeira poderosa, conhecedora dos encantos do deus Tupã. A sua tenda era cheia de mistérios, pedaços de estátuas pendurados e muito incenso. Ela conversou com ele, explicando o que iria fazer, fecharam os olhos e sentados ela começou a conversar com a sua entidade espiritual, e sussurrando falou:
- Deus Tupã, sei que eu não posso fazer a felicidade dele com Anaqui nessa paixão.
Ele interrompeu e suspirou baixinho:
- Minha vida não tem mais sentido, e eu aceito qualquer decisão que o deus Tupã fazer o que quiser de mim. O Cacique é muito violento.
A sua deusa-mãe rezadeira então acendeu mais uns incensos e conversaram:
- Arturi, meu filho, seu desespero e sofrimento só tem uma razão: a paixão de viver ficou do mesmo tamanho da paixão de morrer. Quando isso acontece, nada mais terá sentido. Só tenho um jeito para acabar com o seu sofrimento, que é transformá-lo num pássaro, porém não haverá como desfazer o encanto, se não for por alguém que muito lhe ame e peça a mim numa noite da primeira fase da lua, que é a Lua Nova, no começo de um dos meses do ano que começam com a letra “A”, por serem o melhor período de energia para iniciar novas atividades, com o nascimento de um novo ciclo propício à novas realizações e quebra de encantos.
- É o que eu mais quero. Pode fazer de mim o que quiser, pois sendo um pássaro eu poderei vê-la na hora que eu quiser. – autorizou ele.
A deusa-mãe explicou:
- Vou chamá-lo de Purari, porque já ouvi o som feito pelas flautas de bambu, e terá um canto especial para voar pela floresta com seu forte e lindo canto.
Após um trovão que clareou a escuridão daquela tenda, o deus Tupã transformou Arturi num pequeno pássaro colorido (vermelho e amarelo com asas pretas). Para as pessoas da tribo a mãe rezadeira disse que ele havia ido embora para outra região e nunca mais voltaria, criando lá uma família.
Purari era um pássaro mágico, que trazia muita sorte para quem conseguisse escutá-lo cantando, podendo fazer pedido, que ele poderia pedir ao deus Tupã realizar. O canto do Purari corria pelas matas a dentro, mas ele não ficava mais na redondeza da tribo de Anaqui, preferia ficar longe da sua amada por longo tempo, porque ela não sabia que ele estava transformado num pássaro, que cantava o seu amor.
Um dia criou coragem e chegou mais perto, pousando em cima da cabana da jovem esposa do Cacique. Ela começou a ouvir aquele lindo canto, causando muito ciúme no marido, pois a mulher estava amando o canto daquele pássaro. Então ele disse que iria prendê-lo numa gaiola, como fazia com os outros animais, para depois matá-lo. O pássaro fugiu naquele momento, causando uma grande tristeza na mulher, que teve um mal súbito e caiu de cama.
Após quase um ano de voo para longe, e com medo do Cacique Jubá, o Purari quase foi aprisionado, então preferiu voar para mais longe, sendo perseguido por Jubá, até mesmo fora das terras da tribo, passando por Anapu, Pacaja, Portel,  Redenção e Rio Maria, chegando em Sapucaia, perdendo-se na região de um acampamento dos “sem taba e sem oca”, sendo atacado com pedras, e ao cair perdeu a noção de onde estava. Logo viram a sua beleza e um lindo e diferente canto triste, e resolveram cuidar dele, colocando-o numa gaiola, até que um dia chegou Jubá ao acampamento, fez amizade sem contar o que queria. Logo que deu certo, tirou o pássaro e levou de volta em direção à sua tribo, onde iria matar o miserável que roubou o coração da sua esposa. Com muito cuidado pegou o animal, colocando-o num potinho de barro.
Numa noite daquelas, depois de andar durante uma semana voltando para casa, o Cacique deitou para descansar à beira da famosa lagoa dos jacarés, e ao dormir não percebeu uma cobra cascavel descendo da árvore, dando-lhe uma mordida, enrolando-se no pescoço dele, que acordou se batendo feito um louco, quebrando sem querer o pote de barro, libertando o pássaro, e depois caindo na lagoa. A ave voou bem alto durante uns três dias, quase sem descanso, até chegar à tribo da sua amada Quiqui na noite do dia 5 de abril.
Ela não sabia que ela ainda estava doente, mesmo assim pousou em cima da tenda dela, emitindo o seu lindo canto, como o som de uma corneta mágica, fazendo com que ela fosse tomada por uma grande alegria. Ainda fraca, levantou-se e abriu a cortina da porta da tenda, e o pássaro entrou, pousando em seu ombro. Ela não sabia que, por ironia do destino, ele era o jovem índio transformado, e que não poderia mais voltar a ser homem, a não ser que fosse desfeito o encanto de amor que ele sofreu.
Ah se ela soubesse quem era ele, poderia pedir ao deus Tupã para desfazer o encanto, e trazer de volta o seu amor.
Nunca mais se ouviu falar no tal Cacique.
Num desespero contínuo, ele cantava Arturiiiiiiii várias vezes, até que ela se tocou.
- Pássaro, você é Arturi?
- Arrrrrrr! Tuuuuuu! riiiiiiii! – repetiu bem calmamente agora.
- Parece que é mesmo. Se for você, faça a mesma coisa que você fez a quase um ano antes de sumir, quando entrou aqui em minha tenda.
Ele voou para o chão e passou por debaixo da rede dela, arrastando em direção à porta.
- É você mesmo, meu Deus, como desfazer esse encanto?
Ele cantou e voou em direção à tenda da sua mãe curandeira. Entrando, logo a velha senhora entendeu do que se tratava. Olhou para uma tabela onde anotava os dias do ano, para saber se aquele era um dia bom para desfazer o encanto. Tudo verificado, explicou que só poderia fazer se a moça pedisse, com muito amor. Foi feito o pedido e após uma nuvem de fumaça tomar conta da tenda, ele apareceu, abraçaram-se e começaram uma nova vida, tiveram alguns filhos com os nomes de Aveiro, Bajuru, Curuá, Curuca, Juruti e Muana.
Beijando-se e se abraçando, viveram felizes para sempre.
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(Do livro Contos e Lendas Brasileiras - Editora Mágico de Oz - ISBN 9788567687187)


João Bosco do Nordeste
Enviado por João Bosco do Nordeste em 25/09/2020
Alterado em 29/09/2020
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