I - ALBERTO CAEIRO, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. (1889 -1915).
É o mestre poeta que aceita o mundo como ele é. É o poeta do real e do objetivo, tendo nos olhos o principal captador do mundo real. Por ver tudo apenas como coisa simples torna-se bucólico, aceitando tudo da natureza como necessário, pois a existência de tudo é natural. Ele se realiza no plano do pensamento metafísico, na experiência das sensações e na construção da escrita. Percebe a singularidade das coisas, sem se preocupar com a origem.
Caeiro foi muito influenciado por Cesário Verde, chegando a citá-lo, como por exemplo, no Guardador de Rebanho, “Canto III – Ao entardecer”, na quarta estrofe:
“Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde”.
Através dos sentidos o poeta observa o mundo, já que para ele não há passado e o futuro não existe a não ser a simples condição de criar imagens falsas e enganadoras da vida.
Analisaremos o poema Canto XXI - Se Eu Pudesse trincar a terra toda, do livro O Guardador de Rebanho: sobrepõe as sensações visuais ao mistério das coisas, que é o objeto da metafísica.
POEMA ANÁLISE
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar Num devaneio o poeta quer abrir, quebrar para ver por dentro. Sentir o sabor real da vida. Seria mais feliz um momento ... O desejo poderia transformar-se em realidade. Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural.. Mas a realidade já é o que se vive. Assim é natural.
Ser infeliz também é da natureza do homem, confirmando a aceitação do mundo de forma natural. Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha.
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica..
Assim é e assim seja .. Tudo deve ser encarado como natural na vida, para que seja completa.
Ser feliz ou infeliz é natural e pode trazer a felicidade, inclusive nos momentos de altos e baixos.
Trata-se do mesmo raciocínio do verso anterior. Sentir as coisas como realidades normais. Seja qual for o momento.
Quem vê tudo de forma natural sofre menos.
O olho possibilita ver o sentimento real. Pensar como coisa natural, como andar. A morte aqui se apresenta como coisa natural. O por do sol (a morte) é o fim do dia, mas é belo. O que resta é somente fazer uma oração final, aceitando tudo: Amém!
Resumo:
Não existe nada mais natural do que nascer, viver e depois morrer. Viver é conviver com as coisas boas e ruins, aceitando-as sem contestação. Por isso o poema reflete o resignação de Fernando Pessoa, na figura do poeta Alberto Caeiro, quando o “eu” lírico reconhece que é necessário se conviver com a tristeza, para que a felicidade possa existir ao poucos. As hipóteses traçadas dão conta do reconhecimento de que no mundo há dialéticas contraditórias entre os desejos e as realizações.
Ao saber que não pode mudar a rota natural das coisas, o poeta sente-se impotente. A própria visão do poeta sobre a morte é bela, como um “mal necessário” como a rotina de um dia que tem aurora vida e ocaso, procurando viver essa certeza de forma espontânea e natural.
Portanto, Caeiro não quer acrescentar imaginação à Natureza da vida humana, e sim procura viver as coisas como elas são, sem significações, sentidos prévios, bastando ver e sentir, reconciliando-se com a própria natureza, confirmando a sua condição de resignado, que aceita tudo sem poder mudar a natureza das coisas.
Logo no primeiro verso Caeiro diz “Eu nunca guardei rebanhos”, num questionamento à função de Deus, como pastor de suas ovelhas, como está escrito, por exemplo, em Números 27, 17: “que marche à sua frente e guie os seus passos, para que a assembleia do Senhor não seja como um rebanho sem pastor.” Ou em outro trecho mais específico em Eclesiástico, 7, 24: “Tens rebanhos? Cuida deles; se te forem úteis, guarda-os em tua casa”.
Ele pensa com os olhos, com os ouvidos, com as mãos, os pés, nariz e boca. No Canto IX ele arremata: “Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos”.
Então, “Assim seja”.
Em tempo: Pegando como tema a Natureza, neste ano de 2012 quando será realizada a Conferência mundial Rio+20, tendo como tema o meio ambiente, fiz a união de vários versos de estrofes do Guardador de rebanhos (ver o anexo 3), onde Caeiro versa sobre a natureza, que para ele não é divina e nem Deus, convidando-nos a conviver com ela de forma irracional, gozando do que oferece, sem necessariamente estar pensando nela.
II - CAMILO DE ALMEIDA PESSANHA (07/09/1867, Portugal – 01/03/1926, China).
Formou-se em Direito e depois foi para Macau (China), aonde seria Professor. Doente grave de Tuberculose foi várias vezes a Portugal para tratar da saúde.
Muito influenciado pela poesia (anexo 2) do poeta francês Paul Verlaine (30/03/1844 - 08/01/1896), dono de alguns poemas, como “Poemas saturninos”, “Romances sem palavras” e “Chora no meu coração”..
CLEPSIDRA (relógio de água) é um conjunto de poemas compostos ao longo de vários anos, tornando-se um marco do Simbolismo português, cujo título lembra o poema L’horloge (anexo 1), de Baudelaire, registrando a passagem do tempo que se esvai dentro da vida, no contexto biográfico do autor, descrevendo os conflitos interiores e exteriores, desde as doloridas resignações, os sonhos, as ilusões perdidas, a partir da sua vida de estudante universitário, com as cartas para a família e os amigos distantes.
Analisaremos o poema “Branco e vermelho”: (1894) Trata-se do mais longo poema de Camilo Pessanha, onde o “eu Lírico” narra delírios em translúcidas visões.
Análise do poema:
POEMA ANÁLISE
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Na experiência da dor, Pessanha estabelece uma relação intrínseca com a morte, a ferida que é aberta sem aviso. O poeta está em êxtase, alucinado, cujos olhos não conseguem mais enxergar o que está vendo. Tudo é um vazio existencial transloucado de branco, envolto numa intensa dor. Percebe-se que os verbos estão expressando ações já ocorridas no passado.
Tudo se esvai... definha... se acaba... recomeça. Esse deserto também pode ser entendido como a página branca onde o poeta tenta escrever suas agruras e encantamentos, mas erra no percurso (dá um branco), tendo o texto dos seus pensamentos ser recomeçado, invariavelmente.
A imensidão é a expressão de infinito de uma dor sem igual e sem final. E tem de ser branca, para continuar moldando o quadro doloroso e as consequências do vazio existencial daquela sua vida. Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
[...]
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
[...]
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
[...]
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor... Mostra o estado de desilusão e falta de perspectiva do “eu” poético que não pensa mais, não sente mais e vaga pelo mundo apenas como a sombra de uma luz. Sob a ótica da ilusão, no deserto da dor e do pessimismo, o poeta lembra aquele ditado árabe que diz “O cão ladra e a caravana passa”. Ele “ladra”, mas ninguém o vê. Enquanto isso, a vida passa, além das dores dos escravos condenados. Como ninguém consegue chegar à linha do horizonte, há uma contínua linha de determinismo do sofrimento humano. Uma dor que ao final é inútil, pois todos algum dia vamos morrer mesmo. O descanso eterno é o jardim celestial, aonde ninguém mais vai sofrer. É onde as almas descansam. Para o poeta, ali termina a impressão de desintegração do seu ser. Chega-se ao final do percurso alucinatório.
Percebe-se os verbos flexionados no presente, de modo, denunciando aquele momento de transe em suas visões no presente. Nos últimos versos o poeta se entrega pela falta de forças para reagir e para ofuscar o branco do vazio existencial, o poema é marcado pela introdução da cor vermelha, por ser forte é capaz de mudar os rumos da narrativa, dando cor a morte, que em contraste com o branco da dor infinita do vazio existencial pode ser uma alternativa de suportar o desengano até o último instante, para que seja cumprida a única promessa possível que o sonho do ser humano vai se transformar em realidade.
Pessanha estabelece uma relação intrínseca com a morte e a experiência prévia da dor. O que o poeta tenta desvendar seria a falta da origem das coisas? Qual a finalidade da vida, senão a caminhada desengrenada para a morte?
Finalizando com outro poema, no qual o autor mostra suas inquietações, com um final mortificado para sempre numa cripta, sorrindo da vida, sem precisar sofrer mais.
(Poema: Porque o melhor, enfim! - Camilo Pessanha)
[...]
E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.
REFERÊNCIAS:
PESSOA, Fernando. Poesias completas de Alberto Caeiro. São Paulo: DCL ,2012.
PESSANHA, Camilo. Pessanha. Clepsidra e outros poemas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.
ANEXO 1:
LXXXV - L'HORLOGE (Baudelaire)
Horloge! dieu sinistre, effrayant, impassible,
Dont le doigt nous menace et nous dit: "Souviens-toi!
Les vibrantes Douleurs dans ton coeur plein d'effroi
Se planteront bientôt comme dans une cible;
Le Plaisir vaporeux fuira vers l'horizon
Ainsi qu'une sylphide au fond de la coulisse;
Chaque instant te dévore un morceau du délice
A chaque homme accordé pour toute sa saison.
Trois mille six cents fois par heure, la Seconde
Chuchote: Souviens-toi! - Rapide, avec sa voix
D'insecte, Maintenant dit: Je suis Autrefois,
Et j'ai pompé ta vie avec ma trompe immonde!
Remember! Souviens-toi! prodigue! Esto memor!
(Mon gosier de métal parle toutes les langues.)
Les minutes, mortel folâtre, sont des gangues
Qu'il ne faut pas lâcher sans en extraire l'or!
Souviens-toi que le Temps est un joueur avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup! c'est la loi.
Le jour décroît; la nuit augmente; souviens-toi!
Le gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide.
Tantôt sonnera l'heure où le divin Hasard,
Où l'auguste Vertu, ton épouse encor vierge,
Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
Où tout te dira Meurs, vieux lâche! il est trop tard!"
Charles Baudelaire Relógio! deus sinistro, assustador, impassível,
Cujo dedo nos ameaça e disse: "Lembre-se!
A pulsante dói em seu coração cheio de medo
Será plantar logo um alvo;
O prazer vai fugir para o horizonte nebuloso
Como um silfo na parte inferior da lâmina;
Cada instante come um pedaço de Delight
Cada homem pagou por sua temporada inteira.
Três mil e seiscentas vezes por hora, a Segunda
Sussurros: Lembre-se - Rápido, com sua voz!
No inseto, agora diz: Eu sou o passado,
Eu bombeado e sua vida com a minha terrível!
Lembre-se! Lembre-se! Pródigo! Esta memória!
(Minha garganta de metal fala todos os idiomas.)
Os minutos, mortais tolos, são gangues
Não deve ser deixado ir sem extrair o ouro!
Lembre-se que o tempo é um ávido jogador
Quem ganha sem batota, de cada vez! é a lei.
Os declínios dia; noite cresce, lembre-se!
O abismo tem fome, a ampulheta se esvazia.
Às vezes o soar da hora é divina possibilidade,
Onde a augusta e virtuosa esposa virgem Encor
Onde há arrependimento (último refúgio!)
Onde tudo que você diz covarde, Die velho! que seja tarde demais! "
Charles Baudelaire